sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Carta de Existência


Cedro do Abaéte, Dia 21 de Novembro de 1990

        Querido Nelson,

como me pediu estou te enviando esta carta para dar noticias de como está minha mãe, ela esta bem e nosso plano de ir “desacostumando” ela da presença da filha está correndo bem. Ela parou com aquelas birras, e acho que o susto de eu ir morar em Belo Horizonte com você já está passando. Ela está triste, de fato. Mas mesmo assim vai se conformando com a idéia de eu seguir minha vida. Ela tem que perceber isso mais cedo ou mais tarde. Seu sogro já está a par da situação, e parece me apoiar. Apesar de eu sentir uma ponta de angustia nos olhos dele, bem no fundo. Mas mesmo assim tudo isso não me tira a idéia de viver uma nova vida. Uma vida feliz com você, meu amor! Com a nossa própria casinha, em qualquer canto dessa cidade, em que você diz ser tão grande! O Talles já esta super animado para conhecer essa cidade, sendo que sei que ele nem vai se lembrar dessa época, de tão novo. Tão branquinho e delicado. Sei que tudo vai dar perfeitamente bem, nem que para isso tenhamos que todos trabalhar juntos para nossa felicidade de nossos filhos... Há! Quis esconder essa noticia até eu te encontrar novamente mas não vai dar, esta me sufocando! Estou grávida! Isso mesmo! Grávida! Vamos ter um bebê! Como eu te disse quero que seja menino. Mas você insiste na idéia de ter uma menina... E ainda com o nome de Tássia?! Só para combinar com o nome do irmão... Ok! Faço uma promessa, se for menino como eu quero vou manter a idéia do nome, vai se chamar Tássio! Estou morrendo de saudades...

                                                    ...de sua eterna Maria Elena.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Detalhes

       Nos pigmentos, nas escadas, nas esquinas, nas dobraduras. Era possível? Como dormir após um dia comum, e acordar em outro renascido? O sol era assim, sempre que dormia cansado. E renascia como se fosse outro, mas apesar da cor, era o mesmo. Seu calor variava, e isso o dava a impressão de ser diferente. Mas não era, era o mesmo. A mesma estrela que contorna nosso planeta. Todos os dias, mesmo quando há nuvens. Bem quê sabia que ele está lá.
       Sua orbita é a segurança que faz acreditar que será visto no dia seguinte. E isso torna as noites agonizantes, e os dias esperançosos. Sua presença, vida. Uma nova cadeia de ações, de tarefas, de vontades. A vontade de amar, pelo puro e total forma do verbo. Sem mistérios, sem duvidas. Tosco ou singelo, árduo ou deslizante. Só de ter a presença de algo tão grande já faz tudo ser diferentemente o mesmo, porem nunca igual.
      Isso era fato, como poder afastar algo tão celestial. Como se isso fosse possível – sem ao menos interferisse em todos os demais planetas – como se fosse preciso. E era especular, falar mentira, que tamanha bola de fogo fosse apagar. Isso seria como o gelo dos pólos de minha casa derretesse até amanha, dizer que o amor poderia acabar, que a aurora boreal não fosse mais sentida.
      Tão absurdo que era como trocá-lo dizendo que não era certo, que não funcionaria. Dizer que não serve para centralizar os sonhos de todos que o orbitam. Como uma dança que deixa rastros entre as vestimentas dos convidados sobre o anfitrião parado. Dizer que eu não posso defini-lo, dizer que não tem forma. Só por ser flamejante, só por inconseqüentemente transformar-nos em cegos. Seu charme é radiante, e se esconde dentre os raios que me ofuscam.
       E não é de se pensar, nem de sentir. Apenas de acreditar, como se pudesse observar detalhes a olhos cerrados. Torna um hábito, uma ferramenta, uma necessidade. Nos dias em que podemos só ver chuva, as nuvens tornam-se entorpecentes. E cansamos de absorver-las em um vicio mórbido só para ver tua luz.
      Como não dizer que se precisa de chorar quando esta triste. Como dizer que você erguido torna-se mais do que um detalhe. Como nulamente dizer que posso ir embora sem você, por um caminho, por uma estrada. Como dizer que eu não te amo, seria sinônimo da pior mentira, seria o antônimo do meu destino, não seria efeito. Não seria eu.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O Pseudo-assassinato do Sr. Goldenberg

      Ele não tinha forças para olhar o que via adiante. Estava sentindo repulsa, desejos de vomitar. Vomitar o que via, assim como seus olhos absorviam, tornando a cena em dois. Sua consciência, estava louca. Em ver toda aquela chacina, aquele palco. Ela não queria ver aquilo, obra barata. Nula de vida, que fez com o corpo, anulasse. E a caneta não conseguia nem definir, nem catalogar a gravidade do verbo. Que lei puniria tal crime? Ele sabia que tal corpo como esse não se importava. Pois era agora, só um objeto, sem cortes sem abstrações, sem danos. Do modo em que a partir do momento em que se tornara corpo, suas características já o tornavam, comum. Como era comum para ele vivo, viver.
      Ele colocara um lenço nas suas narinas, o cheiro daquela cena o fazia lacrimejar. Estava mais do que frio, o corpo estava contorcido como se estivesse dançando, vazando algo que não era sangue. O corpo não possuía mais sangue, só plasma e pus. Não havia nenhuma arma por perto, nem branca, nem projéteis. Só o corpo. Era um crime perfeito. Ele abaixou com seu lenço equipado, enfiou a mão com o lenço no bolso do infeliz e encontrou sua carteira. Ela era de couro de jacaré, não era muito espevitada. Possuía os detalhes a ouro de quilates rigorosos. E possuía o dom de botar medo, só de ouvir, o desabotoar dos seus compartimentos.
      Dentro dela havia um talão de cheques, cartões de créditos, uma caneta mini de cor preta – com a tampa trabalhada, e uma pedra que parecera rara na ponta – e alem de uma quantia chamativa no bolso principal havia a identificação do corpo, sua carteira de identidade. Sua foto não era muito antiga, o identificado possuía nela cabelos ainda brancos. E na filiação, após o seu nome, havia nomes de finais semelhantes – como uma família tradicional. Importantes e carregados de índole.
      Carregava após os respectivos nomes de seu pai e sua mãe, o nome de Ruphert Goldenberg. Para ele parecia um nome criado, mas mesmo assim sentia importância em seu nome, uma certa imponência. Pois o seu próprio nome era só Silva seguido de um desprovido Soares, e ele era apenas um detetive, na verdade um delegado. Mas recebia os honorário como um soldado qualquer municipal. E esse fato o tornava comum, como o próprio corpo que se apresentava morto em sua frente.
      O “Doutor” Silva havia recebido a ligação em forma de ocorrência, naquela madrugada. Era de um dos seguranças do local. Que acusava gritos, discussões, brigas na residência e logo após houve uma pausa. Um longo silencio tomava conta, e após, um carro abandonara a mansão. E os seguranças resolveram comunicar à policia. Logo após o detetive, usado só para neutralizar a situação em caso de ladrões ou assassinos, veio a pericia. Para identificar o passado, os minutos anteriores a aquele acontecimento. E não demorou muito, veio a ambulância, o reforço, a mídia, os advogados acompanhados do testamento quente recém impresso por eles. A pericia fora a próxima a trabalhar, logo matou a charada. Não havia crime, e tudo fora abafado antes que publicassem especulações. Ele sofrera de hipertensão, e morrera de infarto.
      Silva resolveu comunicar a família, após chegar ao IML pela viatura. Ele encontrou um numero de celular em seus pertences. Ele discava, não demorou muito para atendê-lo. Atendeu uma voz cansada, o fundo era silencioso. Parecia já ter fumado na vida, pois seu grave na voz era arranhado pela traquéia carbonizada.
      Ela logo atendia, como pergunta o óbvio de uma ligação: “Alô?” Ele logo respondeu: “Aqui é o delegado Silva Soares, do departamento de investigações criminais. Gostaria de comunicar uma noticia a família do Sr. Goldenberg.” Ela ficara tremula e respondeu rispidamente: “Eu não o matei! Ele já nascera morto, ele só fez aos seus sentimentos!” Logo ele a quis acalmá-la: “Acalmes-se senhora, eu não estou acusando ninguém, ele morrera de infarto. O que a senhora era dele?” Ela procedia de voz baixa: “Eu era sua esposa, e ele não morrera de infarto, isso seria um luxo para ele.” O detetive, curiosamente perguntou: “Então o que a senhora sugere na causa de sua morte?” Ela finalizava: “Para mim, ele morrera de hipotermia cardíaca; seu coração paralisou congelado...”

Astros em Fúria


      Todos os astros se contemplaram, era o orgasmo final. Aqueles que eram estrelas, viraram buracos negros e isso fazia a fúria de Deus arder em mim! Eu não posso definir o que é, e realmente não é definível. Tamanha força, tamanha vontade de dobrar o aço nos dentes, é a fúria de quem não pode tocar, e se retorce para se contorcer. Todos os Deuses, todos os governos, todos os modos e sistemas. Todas as águas, os cursos, os fluxos. Tudo que é inalterável, sólido e imaleável me torna demoníaco, me torna ganancioso, me torna profano. Tudo aquilo que esteja escondido, eu vou achar, tudo aquilo que um dia foi planeta fora de seu curso. Eu vou colocá-lo nos eixos, nem que para isso eu precise me matar afogado na minha própria banheira. Afundando minha cabeça contra a lousa e as dobras da torneira. Nem que eu precise dar voltar eternas no planeta para eu voltar ou avançar aquilo que me fez estar lá. Nem que eu vire essa casa de cabeça para baixo, revirar cada gaveta, abrir plantas, remoer fios! Nem que o sol me torre, nem que Deus me lance eternamente no inferno como fez com o Diabo, nem que eu precise virar Deus para isso! Eu vou encontrar alguém que me sinta como eu sinto tudo o que esta a minha volta!

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Companheiro Perfeito

        Não conseguia, ele permanecera dopado por sua própria função, seus membros inferiores nunca moveram. Criava uma proteção radial, como se sua aura pesasse os demais. Ele era divino possui o dom de chamar atenção, era discreto, charmoso e podia levar o seu suspiro milhas e milhas de gritos quando bem reproduzido. Todos o considerava um inimigo, mas isso por que não o entendiam. O sonho alheio era usá-lo para expressar o que o alheio sentia. E isso o tornava útil, porem o tornava enigmático.
        Seus dentes eram fortes, brancos, feitos de marfim. Era o seu meio de se expressar, cada dente era uma voz, cada voz uma vontade. E era o que conseguia fazer, reunia varias vontades humanas, das profanas as mais divinas. Numa turbulência, ou paralelamente; isso só o seu dono podia determinar. Quando o seu dono o possuía, era normalmente mantido em lugares que os demais podiam ver. Como um troféu, mais era triste mantê-lo sem que ele pudesse mover seus lábios.
      Aliás estes lábios, eram enormes, e não possuía gosto. Não era carnívoro nem vegetariano. Ele apenas absorvia alma, você poderia ceder parte dela, ou despejar todo o seu interior dentro dele. E era isso que o tornava predador, sua raça era das mais complexa, perfeccionista. Ele não era domado e isso o tornava caça ou caçador, dependendo do que sua alma tinha para oferecê-lo.
      Os olhares para ele, é sempre o mesmo. Mistura de vontades, opiniões, estilos. Tudo para o tornar mais confortável. Mais como sempre, impossível. Ele possuía características iguais a das luzes, viaja em linha reta, seu interior. Paralelamente para proporcionar seu chocalho perfeito. Era pior do que um camaleão, pois ele podia se apresentar como sua forma original, com patas, rabo e orelhas. Ou disfarçado, entre o sofá e uma escrivaninha, uma pilastra com ou sem castiçal. Era o que tornava seus crimes hediondos. Toda vez que eu sentava em seus aposentos, ou não conseguia dar sentido em uma só conversa com ele. Ou me desesperava, e me arremessava no seu ombro amigo. Ele era um perfeito companheiro, ele era um comparsa perfeito. Ele era mais, ele era o meu desejo. O meu piano.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Sala Chuvosa

         Ele não sabia por que, nunca se dera bem com ela. E mesmo assim estavam próximos. Ele sempre sem assunto, meio distante, analisando o mundo... De um ângulo diferente. E ela sempre querendo sentir as coisas, querendo achar os meios dos fins, o motivo de tudo e de todos naquele lugar. E só do fato dos dois serem assim, sem estradas, sem pontes ou qualquer outro modo de conexão, já os tornavam conectados. Os olhares os espíritos as idéias, até nas criticas, eles já se sentiam em ciclo, mas nada de sentir iguais.
        Eles possuíam um medo mórbido de se sentirem iguais, de um dia colocarem um igual entre suas equações. Não pelo fato de um dia chegarem a um denominador comum, mais sim de estarem com medo desse valor, do que esse valor representa e que tipo de numero seria essa igualdade.
        Mesmo assim eram incompletos, um sem o outro. Eles sempre se entre olhavam e sempre se perguntavam no ar rarefeito entre a turbulência dos dois: “Por quê?” – e isso já definia seus dias de martírio e complexidades. Ela já soubera disso, mas tinha medo de não saber o que estava se passando naquela cabeça enigmática e esquizofrênica, e ele tinha outro medo, o medo de estar incongruente com ela. O medo de estar invadindo certa expressão na qual ele sabia que ia completar. A tolice tomava conta, um na forma física, e na outra da forma espiritual. Entretanto ficavam naquele dilema de não quererem saber que um com o outro, mesmo que o amedrontasse, era a melhor alternativa. Não sabiam que na vida de um casal (propriamente dito, casal, um homem e uma mulher) equações são indecifráveis, e mesmo que as decifrem seria o fim deles mesmo, uma separação.
        E esse medo que os tornam inertes, sólidos e ambíguos. Mas tornavam presente naquela tarde chuvosa, na casa dela, onde qualquer coisa se passara dentro daquele largo tubo de imagem, na sala de estar dela. Onde ela já ferira os lábios de tanto os mordiscarem. E ele possuía os olhos já ardentes, de tanto intercalar seus olhos entre a TV e os olhos molhados dela. E eles sabiam porque estavam ali, e dentre vários comerciais ali passados, vários impulsos de vontade entre ambos dentre cada vinheta daquela caixa de mágicas.
       Virou então uma competição, cada hora um ousava um movimento, um toque. Não dava para imaginar a que distância ou posição que eles se encontravam no cômodo. Eles só se permutavam entre os ares. Ele na sua base física, a cada toque seus pelos do braço arrepiavam, e ele sentia sua barriga enrijecer como se estivesse levantando de um conforto, para uma vontade louca de desconfortar. E ela no seu plano espiritual, sempre que sentia um olhar, uma expressão ou algo que tornasse diferente aquele lugar, a deixava travada em seus aposentos, e transformava tudo por perto muito denso.
       Já aproximava as 6 horas da tarde, e ela sabia que ele teria que ir dali embora, e ele já estava a sentir pressionado com o tempo, seu celular dava facada em seu ego a cada vez que ele o consultava. Já não tinha outra solução, a TV se transformara em um passador de tempo doloroso para os dois, e eles já nem haviam mais explicações para aquela cena que eles se encontravam. A pressão atmosférica já havia dobrado, e seus ouvidos pareciam gritar depois de um surto de uma explosão de uma granada naquele cômodo.
       Quando tudo estava preste a suprir a expectativa da vontade humana, de um sobre o outro, e aquilo já se tornava um altar de vontades implícitas entre olhares cegos para o feixes que se reproduziam naquela caixa maldita de soluções. A luz se sentira fraca com as necessidades daquela casa que parecia usar mais energia do que as demais. Afim de suprir o que ambos não tinha, ela misteriosamente acabou.
       Agora viraria tudo de cabeça para baixo, eles subitamente estavam em uma saia justa, precisavam justificar um para o outro, qualquer situação que houvesse. Assim ele olhou para o reflexo dela na TV, no fundo do tubo perdido. Era o que ele mais queria ver na programação, ambos se entre olharam nos reflexos escuros daquela situação. Ele não mais reagiu, virou para o lado e disse: “Se eu começar, não vou conseguir parar.” Ela se aproximou dele e respondeu: “Afinal, porque você não tenta parar?” E eles abandonaram os planos.

domingo, 4 de outubro de 2009

Na ponta do Abismo


        Em que freqüência eu estaria. Não consigo recompor: as cenas, os odores, os fatos e as cores. Todas misturadas na mente de quem não tem orientação. Orientação que não é um luxo por falta minha, uma direção em que todos estão seguindo. Só que as vezes alguns acordam, as vezes outros dormem. Daí quando se anuncia o caos, todos levantam! Mas é questão de tempo para todos dormirem.
        Dormem, pois se acostumam. Ela também se acostumou. Por mais que fosse diferente, ou que parecesse em estilo, diferente. Ela sempre estaria atada as curvas desse chão. Não de saliência, mais sim da borda, que limitava a nossa ilusão. Ilusão de liberdade, ilusão da inclusão. Mas mesmo assim, lutava, como se pudesse mudar alguma coisa. Talvez seu estirpe, talvez suas vontades ou quem sabe sua religião.
        Porem ela sabe que foi esse seu jeito de mudar que nos tornou amigos, ela sabe que esse verbo me mantém em fluxo perpetuo com que eu admiro. Ela sabe que com ela eu pulo no abismo! E quem não pularia? A amizade é uma das coisas que tornam a vida mais fútil e flácida do que tudo, só de saber que você os tem verdadeiramente já o torna forte, e dores são risco ao corpo sem intenção alguma.
       Por que a intenção só existe quando existe outra para a primeira existir. Como um pulso de dois pólos, como espelho na frente de outro. A amizade é assim, reflexo dos gostos entre duas pessoas até a imagem desaparecer na superfície do outro. E assim eu vivo, sabendo que tudo é ilusão, e que tudo pode ser facilmente quebrado. Menos a ultima imagem que se forma apreendida no interior de cada amigo meu.
       E dentro dela existe uma chama que se reflete em mim, dentro de mim existe um vento que alastra nela. E nós vivemos alastrando chamas pelo mundo, sem se preocupar com quem será incendiado, com quem vai sobreviver, e até onde nossas labaredas vão alcançar. Pois eu sei que de um abismo o fogo nosso não pode passar, mas quem sabe nele também o nosso calor pode alcançar?

sábado, 3 de outubro de 2009

Algoz da Janela

         Não era para ser invadido. Pois sonhos, como todos que já tiveram, sabem que é inviolável. Pois nem todos obedecem a essas regras, e mal sabem que são obrigados a obedecê-la. Mal sabia que tinha-o em presença, mais em presença eu estava distante. E em meu exílio, sempre fora para me desconectar das regras desse mundo. Eu sempre fui mais adepto as regras dos sonhos do que as desse mundo. E queria ensiná-lo para que você pudesse saber o que se passa nas almas das pessoas quando elas sonham.
         O primeiro ensinamento é o que mais pode ajudar a você interpretar os sonhos de um alvo: a expressão da pessoa. Como eu estava ao dormir? Você poderia, ter visto. Visto meus traços, meus solfejos durante meu longo despejar na cama. Mas como estava tão vidrado: no vidro do meu quarto, no reflexo das quatro horas da tarde. Mal sabia que se tu chegasses pelos raios do Sol, não poderia atravessar minha janela, e nela você ficaria vidrado.
         Vidrado, pois não sabia que durmo de costas para ela, e que minha cabeceira tampa meu rosto de quem vem de fora, fora como você veio. Eu não consigo, e não conseguiria deixar que nem meus visinhos me vissem dormindo, pois sei que em situação como aquela, eu seria preza fácil de suas permutações. Não sabes que conto nomes durante repousos, o espectro que eu sonhava, eu poderia ter dito o nome sem nem saber. E você poderia ter ouvido, por isso durmo de contra a janela.
         Não quero desafiá-lo e nem perguntá-lo o que viria, pois não crio mais interesse sobre muitas coisas hoje. Mas você estava na janela, poderia como em ti mesmo ter filtrado o que sintas, pois sei que sente. E me dizer, pelo menos pelo olhar, que olhos são esses que me persegue. Vivo procurando-os, e filtrando os demais só para achá-los. E isso me intriga, me enfatiza e me ilude, e depois me machuca. As unhas nas quais não uso por vontade minha, são calores estomacais que me invadem ao sentir esses olhos vindos de banda em mim.
         Pois sei que não vem direto. Pois se um dia vier, sei que me mataria. E ai não vou poder mais ter controle de mim, e tenho medo de fazer alguma besteira. Por isso sonho. Sonho pra poder descobrir uma cura para esses olhos que só me aparecem em sonhos e me acórdão com um calor de pelagem própria da raça. E me fazem ter mais esperança ainda, ou as vezes, mais medo ainda. Por isso peço que sonhes, sonhe alto para que talvez tenha essa cura antes de mim e que posse me entregá-la antes do dono desse mal. Pois quero como um amigo que venha pela janela só no caso da urgência de meus pesadelos me consumirem, quero que você não se vidre na janela e nem fique vidrado com o que tenha que aparecer de mim quando eu sonhar. Não quero que você fique de fora como um estranho, não quero que você entre como um conhecido qualquer. Só quero que você me entenda e deixe essa posição de refração no vidro. Quero que você deixe, esse ofício, de ser meu algoz da janela.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Olhos de Lupus


     Aqueles olhos, eu tinha certeza que me afetariam. Eu simplesmente não havia passado a semana muito bem e tinha certeza que a terminaria sem completar a tristeza, porem, estava errado. Entrei em um vício que nunca me ocorrera antes, e tenho medo de não conseguir me desvincular. Começou essa semana, como um ciclo, um mês de outro mundo começando só para mim. Só eu podia senti-lo, e eu não saberia que você me sentia, até hoje.
       Após o vicio do cigarro, que me livrei facilmente. Não saberia dizer se eu estou reagindo a isso, ou a uma nova substância na qual eu sempre a usei, porem só agora posso definir qual é. Algo que faz você desvincular facilmente de qualquer plano e entrar no de outro ser. Algo que faz você realmente provar e saciar dos sentimentos transpostos pelo outro ser. Algo que é estranhamente chamado de janela da alma, e que varia entre várias qualidades e defeitos, e que possuem de diversas formas e desenhos. Apenas para que um deles tome domínio sobre você.
        Estou na cama, prestes a dormir, como toda cena de real importância que me faça sentir. Posso ver me lendo, algo que seja incrivelmente popular e que não me intimide muito pela própria mídia. Porem sinto-me bem, e confortavelmente em fluxo com a historia, até que o sono aparece como uma instigante alternativa. Sonos que aparecem estranhamente pós a tomada de um café ultramente forte conhecido pelos amigos mais íntimos.
        Desarmo, mas desarmo como se eu não quisesse soltar o livro, como se meus olhos tivessem presos a ultima estrofe lida, e como se Deus ou algo divinamente poderoso me obrigasse por redenção a continuar a ler. Pois assim, como já previsto, me sinto despencar. A ouvir trechos da narração criados por alguém que não era Deus, muito menos eu. Alguém realmente inspirado que queria passar para mim, algo realmente doce e real, algo belo.
        Procuro, remexo-me em meus lençóis como se estivesse procurando um alfinete, uma chave desse dilema de ver quem poderia estar declarando tão firmes e claros sentimentos para mim. A necessidade era uma dádiva que sempre chamou minha atenção, dos condes mais ricos, seus desejos sempre me inspirarão a ajudá-los como se eu fosse um mordomo, ou um escravo.
        Achei! Mas por um instante, um feixe, uma passada de água na piscina negra dos meus sonhos. Consigo adquirir só a visão dos seus olhos, olhos persianos que levou a minha semana a falência. Era você, se não era você, era seu espectro. Que viajara milhas para encontra-se a mim, e assim me encontrara facilmente com a janela da alma aberta. Mais um feixe lançado sobre o lençol que acabara de jogar para o lado. E você estava com eles fechados.
        Os olhos nos quais me fizeram de tolo, em acreditar que aquilo me salvaria. Trouxe-me a tona o que eu realmente temia, meu vício. Olhos, janela da alma, prisão de memórias. Os que me pegam são exatamente bem desenhados, sua pupila é mais escura que a sua íris. Porem ambas são espelhadas, ambas tem o poder de ver-me em delírio, pedra polida, sem lapidação. Sem perder um fragmento de seu todo. Olha para mim querendo me perguntar como estou, e como sempre, recebe a resposta dos meus olhos de um jeito que te intimida.
        Pois eu tenho os olhos perfeitos para essa reação, olhos que sempre quando respondem intimidam o locutor da pergunta com o sentimento mais puro, que minha boca não fala. E essa habilidade minha só funcionam com olhos espelhados, olhos de lupus me perseguiram essa tarde para me fazer uma sentença. A sentença de esperança, pois sabes que não posso tê-lo em meu mundo, e nem eu no seu.
        Mais um feche, e afasto o lençol do meu corpo embrulhado, e você não esta mais perto de mim. Seu pedido de ajuda foi recuado pelo destino, o destino de dois mundos. E você fora esconder novamente em olhos alheios, querendo me machucar, como as unhadas que dou em meu rosto, nos momentos de ânsia. Respiro em três ritmos, me acalmo, chacoalho a cabeça. Tentando tirar de mim as narrações prendidas. Levanto-me, sirvo mais uma xícara de café, para rebater o primeiro. E vou escrever esse texto.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Click and Flash

“Por que todos sabem que é impossível, inatingível, e intocável. Só de estar em outro fuso horário já torna as coisas complicadas, deslocar-se, gastar dinheiro, hospedar-se, para depois se frustrar com o inatingível. Pois o que torna uma celebridade intocável, não são seus seguranças ou o seu dinheiro. É a sua importância sobre os demais humanos, a celebridade ela é vista na televisão todos os dias. E pense só: se você é visto várias vezes, logo é conhecido. Se você é demasiadamente conhecido, logo é querido e/ou amado por alguns e/ou muitos. Se é amado por muitos/poucos, logo você já se torna intocável! Pois você será competido por várias pessoas que o querem de alguma forma: um toque, uma assinatura no guardanapo, uma camisa sua suja ou usada. Tudo isso se torna uma relíquia, uma dádiva de deus na terra. O preço disso? Uma vida pessoal e sentimental apodrecida, e supersaturada pelas opiniões e decisões dos outros. Fama: Um veneno doce, que a maioria quer experimentar”